Olhos de música

Nem só de letras se alimentam os olhos, música, música é um instrumento de dissertação intenso que sabe retirar deles expressões irreplicáveis. Com ela servem-se ementas exóticas recheadas de lágrimas com polos opostos, às vezes com entradas da especialidade da casa, outras vezes, num remate final, com uma sobremesa caprichada na tortura apurada do paladar. Tudo cozinhado para que o prato musical tenha o impacto pretendido.

São sensíveis, os olhos, apesar de alguns terem visão penetrante que não recua por nada, a maioria tem dificuldade em esconder o que sente. Não é o formato que os denuncia, há de vários tamanhos e feitios, mas nenhum com capacidade para se transformar noutra coisa. Na verdade, não se sabe o que muda de facto, sabe-se, no entanto, comprovadamente, que muda. Não os olhos, o olhar.

A transformação é subtil, mas suficiente para sabermos que está diferente. A intensidade visual, a energia do olhar, desenham uma alma diferente quando confrontadas com acontecimentos que mexem com o ritmo cardíaco. São como aquele amigo que não sabe guardar segredos, um pouco de aperto e a boca abre feito louca desvairada, como um sincero big brother.

A vida é um parque de diversões, encontra-se de tudo, casas fantasma, carrosséis, rodas gigantes, carrinhos de choque, salas de jogos, churros, algodão doce, luzes e mais luzes, cores e mais cores, há loucura para todos os gostos. Nesse clima de euforia, surge a montanha russa, a atração principal, a inclinação determina a velocidade da intensidade das nossas emoções, umas vezes morosa, outras vezes tão rápida que não damos por ela sequer acontecer.

Nela, na montanha russa – que bem podia ser montanha brasileira, indiana, australiana ou qualquer outra, montanha é sempre montanha – estão inseridas as nossas relações amorosas, as nossas amizades, os nossos conflitos emocionais, as nossas inseguranças, as nossas desilusões, as nossas perdas mais profundas, todas elas com influência indissociável no nosso olhar, na forma como os nossos olhos comunicam. Mas como em quase tudo que a vida constrói, há excepções.

Apesar da profundidade da relação, nenhum desses momentos consegue se expressar de forma tão genuína, como quando associado à música. A música é um orador de capacidades ímpares, consegue chegar mais fundo que qualquer terapeuta amestrado, não precisa produzir uma única palavra, não precisa ser politicamente correcto, não precisa ser simpático, não precisa adaptar-se ao clima, tudo o que precisa, é ser o que é, e o resto acontece. As lágrimas, a dança, o grito, a alegria, o desespero, a loucura, o conforto, a paixão, o amor, a sabedoria, o aprendizado, reflectem-se sem esforço.

Os olhos, expressam-se com verdade intensa quando em contacto com o ritmo sonoro que os desperta, sentem-se livres, extasiados, e entregam toda a verdade que possuem sem pestanejar, sem subterfúgios. Não interessa a pedra que o coração carrega, não interessa o tamanho da maldade, a música sabe sempre o que se esconde no cofre. É um polígrafo ou uma espécie de super heroína, que consegue moldá-los e fazê-los contar a verdade que não quer que se saiba. Mesmo quando cobertos de indiferença.